Este projecto representa a minha forma de captar a imagem da Lisboa personificada de todas as histórias que ouvimos e que vemos no dia a dia, numa tentativa de mostrar a clássica Lisboa tão presente e actual como sempre foi. Sem se emaranhar nas suas tradições e no seu passado mas tão enamorada de tudo o que lhe é característico. Como base desta representação estão as histórias e relatos contados pela minha avó e a minha mãe, de uma amiga de família que nunca cheguei a conhecer. Para a ‘recriar’ foram utilizadas algumas cartas suas e fotografias, assim como objectos pessoais que passaram para a nossa família.
Sempre representou para mim a imagem clássica da Lisboa “Boémia” dos anos 30 e 40. Através das suas fotografias via a imagem de uma mulher tão segura e altiva na sua tão perfeita casa Lisboeta, mas no fundo parecia haver um pouco de tristeza e solidão que tentava encobrir. Após a conclusão deste projecto deparei-me com uma das suas cartas de um amigo íntimo que a descrevia como a imaginava. Abaixo apresento um excerto:

‘(...)dezenas de mulheres, novas e velhas, artistas ou candidatas, conquistadoras | proficionais – e até pobres e simples raparigas que todos os dias esperam a chegada | de uma boa noticia – todas abalam, rápidas, ofegantes em direcção ao grande lugar | que é o Parque Mayer, (...)
Enterrada no maple, Alice Mendes vê tudo isto. Sente que já não é esta a sua cidade; | que morreu a boémia e a alegria de viver. Mas esqueceu-se que também ela não sae | de casa em busca de outros ambientes, porque todos os ambientes a enfadam e | revoltam. Esquece-se de que em trinta anos novas gerações vieram, partiram ou | ainda vivem, sem respeito pelas tradições da boémia, nem gosto de viver, alem do | vestuário cuidado, dos cabelos bem tratados e do ar negligente e decadente.(...)‘ | 8/12/1949

Andreia Neves Nunes