Numa perspectiva documental pretendi captar, em instantes, o resultado de anos de trabalho. Uma realidade pouco conhecida do público e que, tantas vezes, não ultrapassa as paredes das “oficinas”.
Não foi fácil libertar-me dos sentimentos que me ligam a este conjunto de imagens, ou que, na altura de seleccionar o que fotografar, me conduziam sempre a duas, ou três esculturas, em particular.
Difícil, foi também, transmitir a noção do tempo que passámos, eu e outros, com elas.
São figuras mais humanas que santas, concebidas como gente do povo, de tamanhos desiguais, talvez para traduzir o modo perspectivado como estariam dispostas.
Figuras cortadas segundo diferentes planos. Tacelos que nos sugerem as dimensões dos fornos.
A modelação desigual do barro individualiza o modo de vestir de cada imagem: vestes elegantemente pregueadas ou roupas andrajosas; remendos que revelam a classe social da figura retratada; bordados, pregas, pespontos, cintos, fivelas, diferentes tipos de botões e abotoaduras.
Desmantelaram-se as figuras, separaram-se fragmentos mal colados ou desnivelados, remontaram-se as peças em novos suportes, fixaram-se cabeças aos corpos. Preencheram-se lacunas que perturbavam a leitura da obra. Limparam-se centenas de fragmentos, agrupando-os por formas, cores, tipos de pastas.
Durante vários anos viajámos até ao século XVI. Recuperámos o que existia e conhecemos, um pouco, a personalidade de Hodart, o escultor que as modelou. Por ser tanto, e tão forte, o que vivemos naquele espaço surgiu esta vontade de o partilhar.