Nova Iorque, ainda o arquétipo do urbano moderno, a cidade onde tudo acontece a qualquer hora. Não tenho vertigens, e os arranha-céus fascinam-me. Lembro-me de, na minha infância, fazer de carro 600 km, numa súbita combinação dos meus pais com os amigos para irmos passar mais um fim-de-semana à África do Sul. Nessa época, a televisão ainda não tinha chegado a Moçambique – mas o cinema já. Joanesburgo, com a Torre Strijdom e o Carlton Centre, esperava-nos, segura do seu concreto, dos seus centros comerciais gigantescos, das suas estradas aéreas. E, para mim, era o que mais se assemelhava a Nova Iorque, minha conhecida dos filmes e das bd’s - nomeadamente Bruno Brazil, que eu devorava, ávido, na revista TinTin -. O edifício das Nações Unidas, as desaparecidas torres do World Trade Center, o edifício Chrysler, o Empire State Building, a estátua da Liberdade, o edifício que outrora pertenceu à PanAm, a Grand Central Station não são meras fabulosas construções de betão e vidro: pertencem, ao invés, a um mundo de ficção, quiçá recheado das peripécias de um qualquer agente secreto da Guerra Fria que se desloca num bojudo Lincoln preto enquanto a rádio passa um Gershwin ou um Copland.

Quando, em 1989, fui a Nova Iorque pela primeira vez, senti-me uma personagem de filme. Como a viagem fora organizada pela Embaixada dos Estados Unidos, tive a oportunidade de visitar uma série de instituições políticas e financeiras, desde as Nações Unidas a Wall Street, o que me proporcionou uma visão ‘mais por dentro’ do funcionamento da cidade – para mais, ficámos alojados no YMCA e calcorreámos quilómetros… e o que ia observando coincidia, tanto quanto me parecia, com o desenrolar da película em que um esbaforido assobia por um táxi e este se corporiza, como por milagre, à sua frente, ou, ao invés, o táxi pára e arranca logo de seguida, deixando o tencionado passageiro primeiro boquiaberto e, depois, a vociferar enormidades numa língua que tanto pode ser o inglês como um obscuro dialecto da Mongólia.
Contudo, o mais fascinante é absorver as pessoas, como se comportam, como vivem o espaço onde habitam, como se processa a comunicação entre o edificado e a sua vivência: os sinais de trânsito, as cores dos automóveis (entre outros, os inevitáveis yellow cabs e os school buses), as esplanadas, os jardins, as lojas... – e, para um fotógrafo, o sempre diferente jogo de luzes e de sombras, da velocidade e da calma usufruída, de contrastes e de fusões, de verticais e horizontais…

Manuel Ferreira Chaves