A beleza simples de um raio de sol que irrompe por entre a cortina entreaberta numa manha de primavera pode mudar o viver de um dia; o de uma vida muda-o a beleza dos pequenos gestos do quotidiano, se nos deixarmos invadir nos sentidos pela poesia visual despojada de poluição dos movimentos estereotipados.
Numa busca, que quero incessante, procuro o norte que me deixa focar os pequenos quadros do quotidiano que teimam em querer passar despercebidos e em querer ser insignificantes. Nesses momentos de olhar sentido, só nesses, sinto a felicidade de me conseguir deslumbrar com as vidas que me tocam os sentidos e pintam no tempo retratos de extrema beleza. Retratos riscados por quem vive da forma mais presente o retorno invariável dos dias.
O acto de observação destes quadros pede-me que deseje baixar à simplicidade da vida; que consiga, por aquele momento, alcançar a capacidade de me abstrair dos altos sonhos que a sociedade me impõe e beber a vida no mais singelo dos actos.
Nesse quotidiano alheio que assumidamente não perturbo, num processo intensamente contemplativo, funde-se o meu desejo secreto de um dia poder observar de fora e de me deslumbrar com o quotidiano que me é próprio; aquele feito de pequenas coisas que mais não são do que o espelho do que fui sendo e o alimento daquilo em que me vou tornar.